PRIMEIROS SOCORROS (suporte Básico de Vida)

PRIMEIROS SOCORROS (suporte Básico de Vida)

INTRODUÇÃO

O Suporte Básico de Vida compreende o atendimento prestado a uma vítima de mal súbito ou trauma, visando à manutenção de seus sinais vitais e à preservação da vida, além de evitar o agravamento das lesões existentes, até que uma equipe especializada possa transportá-la ao hospital e oferecer um tratamento definitivo.
Apesar de qualquer cidadão poder ajudar em uma situação de emergência, é importante lembrar que isso não o torna um “socorrista” profissional. Para se profissionalizar é necessário adquirir muito mais informações e habilidades, treinamento adequado e, inclusive, para muitas das funções, diploma e registro profissional. Portanto, devemos preferir, sempre que possível, o atendimento pelos socorristas e PROFISSIONAIS DE SAÚDE, que contam com formação qualificada e equipamentos especiais para realizá-lo.

Avaliação Inicial da Vítima

O Suporte Básico de Vida (SBV), oferecido aos pacientes no ambiente extra-hospitalar, consiste no reconhecimento e na correção imediata da falência dos sistemas respiratório e/ou cardiovascular, ou seja, a pessoa que presta o atendimento deve ser capaz de avaliar e manter a vítima respirando, com batimento cardíaco e sem hemorragias graves, até a chegada de uma equipe especializada. Em outras palavras, o profissional de saúde que presta o socorro, que aqui o identificaremos como socorrista, Para fins didáticos, ao iniciar o suporte básico estará garantindo por meio de medidas simples, não invasivas e eficazes de atendimento as funções vitais do paciente e evitando o agravamento de suas condições.
São inúmeras as situações de urgências e emergências que necessitam do atendimento de um Profissional de saúde ou de um socorrista especializado: traumatismos, queimaduras, doenças cardiovasculares, parada cardiorrespiratória, crise convulsiva, afogamento, intoxicações etc. Para cada caso específico, o profissional deverá estar apto a prestar um socorro adequado e de qualidade.
É preciso definir e diferenciar o que vem a ser então uma situação de urgência ou emergência.

Segundo o Conselho Federal de Medicina (Resolução CFM nº 1451/95), “define-se por urgência a ocorrência imprevista de agravo à saúde com ou sem risco potencial de vida, cujo portador necessita de assistência médica imediata.” Já o conceito de emergência é entendido como “a constatação médica de condições de agravo à saúde que impliquem em risco iminente de vida ou  sofrimento intenso, exigindo, portanto, tratamento médico imediato.”

De forma mais objetiva, a urgência é uma situação onde não existe risco imediato à vida (ou risco de morte). O atendimento requer rapidez, mas o paciente pode aguardar tratamento definitivo e solução em curto prazo (algumas literaturas se referem a um prazo de até 24 horas). A emergência geralmente implica estarmos diante de uma situação de aparecimento súbito e imprevisto, grave, crítica e que exige ação imediata, pois a ameaça à vida é grande.

Como o próprio nome diz, o serviço de Atendimento Pré-hospitalar (APH) envolve todas as ações efetuadas com o paciente, antes da chegada dele ao ambiente hospitalar. Compreende, portanto, três etapas:
1. assistência ao paciente na cena (no local da ocorrência);
2. transporte do paciente até o hospital;
3. chegada do paciente ao hospital.

O APH divide-se, ainda, basicamente em duas modalidades de atendimento:
• Suporte Básico à Vida (SBV): caracteriza-se por não realizar manobras invasivas.
• Suporte Avançado à Vida (SAV): caracteriza-se pela realização de procedimentos invasivos de suporte ventilatório e circulatório, como, por exemplo, a intubação orotraqueal, acesso venoso e administração de medicamentos. Geralmente, o suporte avançado é prestado por equipe composta por médico e enfermeiro. 

O APH tem como objetivos específicos preservar as condições vitais e transportar a vítima sem causar traumas iatrogênicos durante sua abordagem, como, por exemplo, danos ocorridos durante manipulação e remoção inadequada (do interior de ferragens, escombros etc.). O socorrista deve ter como princípio básico evitar o agravamento das lesões e procurar estabilizar as funções ventilatórias e hemodinâmicas do paciente.
As condições essenciais para que esses objetivos sejam alcançados são:

1- Pessoal qualificado e devidamente treinado; e 

2- Veículos de transporte apropriados e equipados, sendo inclusive dotados de meio de comunicação direta com o centro que receberá a vítima e hospitais de referência estrategicamente localizados, com infraestrutura material e recursos humanos adequados. Uma atenção pré-hospitalar qualificada é de suma importância para que a vítima chegue viva ao hospital. Nos locais onde esse sistema é inadequado, a mortalidade hospitalar por trauma, por exemplo, é baixa, porque os pacientes graves morrem no local do acidente, ou durante o transporte.

O socorrista, ao decidir intervir em determinada ocorrência no ambiente pré-hospitalar, deverá seguir algumas regras básicas de atendimento:

1. AVALIAR CUIDADOSAMENTE O CENÁRIO

Qual a situação? Observar, reconhecer e avaliar cuidadosamente os riscos que o ambiente oferece (para você, sua equipe e terceiros – paciente, familiares, testemunhas, curiosos), qual

o número de vítimas envolvidas, gravidade etc.

 Como a situação pode evoluir? Tenha sempre em mente que o ambiente pré-hospitalar nunca está 100% seguro e uma situação aparentemente controlada pode tornar-se instável e perigosa a qualquer momento. Portanto, a segurança deverá ser reavaliada constantemente! Identifique as ameaças ao seu redor, tais como riscos de atropelamento, colisão, explosão, desabamentos, eletrocussão, agressões etc. Na existência de qualquer perigo em potencial, aguarde o socorro especializado. Lembre-se: não se torne mais uma vítima! Quanto menor o número de vítimas, melhor.

 Que recursos devem ser acionados? Verifique se há necessidade de solicitar recursos adicionais, tais como corpo de bombeiros, defesa civil, polícia militar, companhia elétrica e outros.

2. ACIONAR A EQUIPE DE RESGATE especializado e autoridades competentes, caso seja necessário, conforme avaliação anterior. Não devemos esquecer que solicitar o serviço de socorro pré-hospitalar profissional é tão importante quanto cuidar da própria vítima. Na maioria das cidades brasileiras, os principais números para acionar o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU), serviço de salvamento e resgate (Corpo de Bombeiros) e Polícia Militar, são respectivamente: 192, 193 e 190.

3. SINALIZAR O LOCAL: isso é especialmente importante em casos de acidentes automobilísticos, portanto não se esqueça de sinalizar a cena e torná-la o mais segura possível. Utilize o triângulo de sinalização, pisca-alerta, faróis, cones, galhos de árvores etc.

4. Utilizar BARREIRAS DE PROTEÇÃO contra doenças contagiosas. Ao examinar e manipular a vítima, o socorrista deverá tomar todas as precauções para evitar a sua contaminação por agentes infecciosos, sangue, secreções ou produtos químicos. O uso de equipamento de proteção individual (EPI), tais como luvas descartáveis, óculos de proteção, máscaras e aventais, é essencial para a segurança do profissional de saúde em atendimento. Portanto, proteger-se de qualquer contaminação e minimizar os riscos de exposição fazendo uso das precauções universais é uma obrigação da pessoa que presta o socorro. Lembre-se do bom senso: a sua segurança em primeiro lugar, correto? Lembramos ainda que a lavagem de mãos com água e sabão deverá ser feita rigorosamente antes e após cada atendimento. Esse é um hábito imprescindível a ser adotado tanto no ambiente pré-hospitalar quanto hospitalar, por todos os profissionais de saúde. Quando se trata de uma emergência o que deve-se fazer é se proteger (com luvas) para salvar a vida e não procurar uma pia para se lavar.

5. RELACIONAR TESTEMUNHAS para sua própria proteção pessoal, profissional e legal enquanto
prestador de socorro.

6. ABORDAGEM E AVALIAÇÃO DA VÍTIMA


Após avaliar o ambiente e tomar todas as precauções de segurança e proteção individuais, o socorrista deverá se identificar e se apresentar à vítima dizendo: “Sou um profissional de saúde. Posso ajudar?”

Em seguida, devidamente autorizado a prestar auxílio e observando todos os aspectos pessoais e legais da cena do acidente (ou doença aguda), o profissional poderá intervir diretamente no atendimento.

É fundamental que o socorrista profissional classifique a vítima em adulto, criança ou bebê, pois os procedimentos de SBV, caso sejam necessários, serão adotados respeitando-se essa classificação, de acordo com as últimas recomendações (2010) da American Heart Association.


• Bebê (“lactente”): do nascimento ao primeiro ano de vida.
• Criança: do primeiro ano de vida até o início da puberdade (por ex: desenvolvimento das mamas em meninas e pelos axilares nos meninos).
• Adulto: a partir da puberdade.


A prioridade de atendimento é determinada basicamente pela gravidade da vítima, ou seja, serão socorridas e atendidas primeiramente aquelas que se encontram sujeitas a maior risco de morte, pois o objetivo principal do primeiro socorro é a preservação da vida. O socorrista deverá seguir uma sequência padronizada e executar as medidas de socorro conforme for identificando as lesões da vítima. O exame é dividido em dois tempos principais: avaliação primária e avaliação secundária.

AVALIAÇÃO PRIMÁRIA consiste numa análise de todas as condições que impliquem risco iminente de morte, tais como permeabilidade das vias aéreas, respiração eficaz (anormal ou gasping), estabilidade circulatória, controle de grandes sangramentos e estabilização da coluna cervical. Essa etapa inicial da avaliação deverá ser completada em 60 segundos, no máximo e imediatamente chamar ou solicitar alguém que chame o serviço de atendimento móvel, se disponível no local trazer o DEA – Desfibrilador Automático Externo. Durante a avaliação primária, o socorrista identifica e corrige prontamente todos os problemas que ameaçam a vida do doente. As medidas de suporte básico de vida são iniciadas nesse primeiro instante. A sequência ABC foi alterada para CAB, o socorrista iniciará com as compressões caso a vítima não apresente pulso. A maior parte dos pacientes que sofrem PCR inicialmente apresentou Fibrilação Venticular – FV ou Taquicardia Ventricular – TV sem pulso. Diante disto as medidas imediatas são compressões e desfibrilação precoce. Sendo assim a sequência utilizada anteriormente retardaria o início da massagem cardíaca. Com alteração da sequência as manobas de compressões serão iniciadas sem atraso e a ventilação verá em seguida.

Circulação – O pulso está presente? Não se deve demorar mais do que 10 segundos para identificar o pulso. Existe alguma hemorragia grave? Na ausência de pulso iniciar de imediato com 30 compressões torácicas, em uma frequência de no mínimo 100 vezes por minutos, com a profundidade de 5 cm. Prevenir ou tratar o estado de choque.

Vias aéreas e estabilização da coluna cervical (em vítimas de trauma, profissionais de sáude que suspeitarem de trauma realizar anteriorização da mandíbula) – Ver, Ouvir e Sentir não se usa mais. Verificar se as vias aéreas estão pérvias ou se existem sinais de obstrução.

Respiração – O paciente respira? Na ausência da respiração realizar 2 ventilações. Essa respiração está sendo eficaz? Ofertar suporte ventilatório com oxigênio suplementar de 12 a 15 L/min para vítimas de trauma.

Avaliação neurológica – Chamar pela pessoa. “Você está bem? Posso ajudar? Qual o seu nome?” Um método muito simples para determinar rapidamente o estado de consciência é a utilização do sistema AVDI.

A – Acordado, Alerta: o indivíduo emite respostas coerentes (nome, endereço, detalhes do acidente...). Geralmente a vítima mantém contato visual com o socorrista e atende normalmente aos estímulos visuais, auditivos e táteis.

V – Verbal: nesse estágio a vítima ainda atende ao estímulo verbal dado pelo socorrista (comando de voz), no entanto, pode apresentar-se confusa e emitir palavras desconexas. Devemos considerar que essa vítima poderá perder a consciência a qualquer momento, portanto ela deve ser estimulada a manter-se acordada.

D – Doloroso: nesse estágio a vítima não atende mais aos estímulos verbais do socorrista, apesar de poder emitir sons ou gemidos, mas sem capacidade de contato visual direto. Realizase um estímulo doloroso (sobre o esterno, trapézio ou leito ungueal) para obter qualquer resposta da vítima (localizar a dor, reagir com caretas, movimentos, gemidos...). É bom lembrar que em muitos casos, a vítima estará em um estado de semiconsciência e poderá até mesmo ouvir e sentir o que acontece ao seu redor. Dessa forma, o socorrista também deverá estimular o retorno da vítima ao estado de resposta verbal, incentivando a melhora do seu nível de consciência.

I – Irresponsivo ou Inconsciente: nesse estágio o indivíduo não responde nem mesmo ao estímulo doloroso. Isso, por si só, já caracteriza uma situação crítica.

 Exposição da vítima com controle da hipotermia – Retirar ou cortar as vestes para visualizar melhor e tratar as lesões de extremidades. Em seguida, cobrir a vítima, prevenindo assim a hipotermia e minimizando o choque. Observação. O protocolo detalhado do suporte básico de vida e reanimação cardiopulmonar (RCP) será visto no capítulo seguinte. É muito importante obter todas as informações possíveis do local do acidente. O socorrista deverá observar cuidadosamente a cena por si só, conseguir informações com a própria vítima (se consciente e orientada), familiares e testemunhas e avaliar os sinais e sintomas indicativos de uma emergência.

AVALIAÇÃO SECUNDÁRIA (complementar):

consiste na segunda etapa do exame, onde serão observadas todas as lesões que não impliquem risco imediato à vida. O socorrista deve buscar realizar anamnese direcionada, checar a história do acidente ou mal súbito, identificar os ferimentos, aferir os sinais vitais e realizar um exame físico padronizado, da cabeça aos pés. Algumas perguntas e informações são fundamentais e devem ser levantadas, como por exemplo:


• Nome, idade, telefone (menor de idade – contatar responsáveis).
• O que aconteceu?
• Isso já aconteceu antes?
• Algum problema de saúde?
• Está tomando algum remédio?
• Está fazendo algum tratamento de saúde?
• É alérgico a algum medicamento?
• Fez uso de algum tipo de droga?
• Qual o horário da última alimentação?
• O que você está sentindo? Sente dor em algum lugar?

Dica para realizar a anamnese: utilizar a sigla AMPLA.
A – Alergias
M – Medicamentos
P – Passado médico
L – Líquidos e alimentos
A – Ambiente (eventos relacionados ao trauma ou emergência clínica)
Durante a avaliação secundária, proceder, ainda, à avaliação dos sinais vitais, observar a cor da pele e verificar o nível de consciência. Destacamos abaixo algumas observações e “dicas” quanto aos dados obtidos pelo socorrista durante a realização dessa etapa.

1. Condições que estimulam o sistema nervoso parassimpático, como algumas intoxicações, síncope e pressão intracraniana elevada podem provocar bradicardia.

2. Condições que elevam a demanda de oxigênio, como febre alta, choque, hipóxia e anemia grave, provocam taquicardia.

3. Um ritmo de pulso irregular e uma deficiência do pulso (frequência do pulso radial menor que a frequência do pulso apical) ocorrem com as arritmias.

4. Um pulso filiforme geralmente é encontrado no choque hipovolêmico, assim como respirações  rápidas e superficiais.

5. Respiração profunda e difícil (com esforço – dispneia) pode indicar obstrução nas vias aéreas, doença cardíaca ou pulmonar.

6. A diferença entre a PA sistólica e a diastólica (pressão de pulso) é aproximadamente de 30 a 40mmHg.

7. Quando a pressão de pulso é baixa, diz-se que a PA é convergente e quando é alta diz-se que a PA é divergente. A PA convergente indica vasoconstrição e ocorre, por exemplo, precocemente no choque hemorrágico antes da queda da pressão sistólica. A PA divergente indica vasodilatação e ocorre nas reações anafiláticas e no choque neurogênico.

8. Uma pele fria e úmida é indicativa de uma resposta do sistema nervoso simpático a um traumatismo ou perda sanguínea (estado de choque). A exposição ao frio produz uma pele fria, no entanto seca. Uma pele quente e seca pode ser causada por febre, em uma doença, ou ser o resultado de uma exposição excessiva ao calor, como na insolação.

9. Todo politraumatizado taquicárdico e pálido está em choque, até que se prove o contrário. Pacientes com coloração rosada raramente têm hipovolemia crítica.

10. A cianose não aparece na intoxicação por monóxido de carbono, e a coloração vermelho-cereja da pele e mucosas, descrita como sinal clássico nesse tipo de intoxicação, é rara.

11. Dilatação pupilar bilateral e não reativa sugere dano cerebral grave.

12. Presença de pupilas anisocóricas sugere lesão cerebral por traumatismo craniano ou AVE – acidente vascular encefálico.